domingo, 29 de março de 2020

'Me sinto na obrigação de alertar as pessoas', diz genro de primeira vítima de Covid-19 no Ceará

Um parente do primeiro cearense morto por por Covid-19 relatou ao Sistema Verdes Mares a dificuldade em viver o luto em isolamento social e alerta para a necessidade de proteger os idosos. A Secretaria da Saúde do Ceará confirma 322 casos da doença no estado e quatro mortes.

"O que nós estamos vivendo hoje na família nos diz que a gente tem que alertar as outras famílias, as demais pessoas, do quanto têm que cuidar dos seus entes queridos, dos seus pais, dos seus avós", disse o genro da vítima Amilton Dourado em entrevista neste sábado (28). "Me sinto na obrigação de alertar as pessoas da seriedade que nós devemos tratar esse vírus. Estamos há 48 horas do óbito do meu sogro e o que a família tá sofrendo vocês não imaginam", ressaltou.
José Maria Dutra, 72 anos, começou a sentir os sintomas de febre e falta de ar no dia 18 de março e se dirigiu à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro Edson Queiroz. Foi medicado e voltou para casa. Dois dias depois, na sexta-feira (20), seu quadro de saúde piorou e ele foi internado na UTI do São José, onde morreu na madrugada de quinta-feira (25).

Apesar da idade, o genro conta que José Maria tinha uma rotina independente e tinha como comorbidade uma diabetes, que estava sob controle. "Meu sogro é um homem de 72 anos, tinha uma vida ativa, trabalhava. Era acometido por uma diabete, mas isso não o impedia de ir à luta, de sair todo dia pro trabalho, dirigia seu carro, tinha uma vida independente. A única coisa que tinha era a diabetes, mas ele controlava a diabetes dele, não era problema".

A viúva de Dutra enfrenta o luto isolada em casa junto com um dos filhos. "Você perde, no caso da minha sogra também, o seu esposo, com quem conviveu por mais de 40 anos. Viviam bem. Um sempre ao lado do outro. E hoje ela se encontra sozinha na casa dela, só com o filho. Os dois isolados, porque tiveram contato com ele e o protocolo manda que assim seja feito. Sem receber um abraço dos demais filhos, sem poder ter contato com o mundo exterior, receber visitas", disse.

No laudo da morte consta que o idoso morreu em decorrência de uma insuficiência respiratória causada por uma infecção pulmonar por Covid-19. O sepultamento ocorreu na manhã de quarta-feira (26), no cemitério Jardim Metropolitano, em Eusébio, na Grande Fortaleza, horas depois da morte.
A rapidez em realizar todo o processo foi motivada por uma decisão da Justiça do Ceará, do dia 20 de março, que proíbe velórios de pessoas que morreram por Covid-19 e determina que o enterro deve ser feito assim que ocorra a liberação do corpo das unidades hospitalares.

Diário do Nordeste

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